Por Billy Culleton (Porto de São Francisco do Sul)
Em março de 1931, as águas da Baía da Babitonga não traziam apenas navios de carga e o progresso comercial para Santa Catarina, elas traziam também o DNA de uma paixão que completa quase um século. Neste 26 de março, o Clube Atlético São Francisco celebra seus 95 anos de fundação, consolidado como o grande guardião da memória esportiva ligada à navegação em São Chico.
Erguido sob a influência da elite portuária e batizado no lendário Estádio Otto Selinke, o “Alvirrubro” nasceu da fusão entre os clubes Deodoro e Bataclan, para se tornar o espelho de uma cidade que respira o mar e transpira futebol.
Mais do que um clube, o Atlético foi o contraponto de uma São Francisco dividida entre os escritórios das companhias de navegação e o suor da estiva no cais. Enquanto o rival Ypiranga mobilizava as massas operárias, o Atlético vestia branco e vermelho para representar a gestão, o comércio e a força administrativa que transformou o Porto em um dos maiores do Sul do Brasil.

Hoje, quase um século depois, as arquibancadas do Otto Selinke ainda ecoam as glórias de 1938, quando foi vice-campeão estadual (o maior feito da sua história), e de 1949, quando sagrou-se campeão da Liga Joinvillense de Futebol, no campeonato regional do Norte catarinense.
O clube participou de 12 edições da elite do Campeonato Catarinense (entre as décadas de 1930 e 1960) e embora atualmente não participe ativamente dos campeonatos oficiais, o Atlético nos lembra que a história do Porto e a do futebol foram escritas com a mesma tinta.
Ao comentar a trajetória do clube, o presidente do Porto de São Francisco do Sul, Cleverton Vieira, afirma que a trajetória do Atlético reflete o papel histórico do Porto, para além da economia. “Desde as primeiras décadas do século XX, a atividade portuária esteve ligada à formação da identidade social e cultural da cidade”.
Vieira destacou que o Porto contemporâneo mantém essa referência ao buscar integração com a comunidade local, por meio de ações institucionais e de valorização da memória, seguindo uma lógica semelhante àquela observada na década de 1930, quando o desenvolvimento econômico caminhava junto com a organização da vida social e esportiva em São Francisco do Sul.
Emprego no Porto viabiliza contratação de jogadores
Na década de 1930, o desenvolvimento econômico de São Francisco estava diretamente ligado ao Porto. Foi nesse contexto que surgiu o Atlético São Francisco, impulsionado pela atuação da Empresa de Navegação Carl Hoepcke.

Um dos principais nomes desse processo foi Otto Selinke, gerente da Hoepcke. Ele participou da estruturação do clube, deu nome ao estádio e contribuiu para aproximar o Atlético da elite comercial e administrativa ligada ao Porto o que permitiu ao clube contratar jogadores de destaque e manter uma estrutura acima da média para a época.
O atual presidente do Atlético, Alexandre Guimarães, lembra que entre os atletas que passaram pelo clube, há registros de jogadores cuja contratação esteve associada a oportunidades de trabalho no Porto. Um dos casos é o de Célio Aguiar, centroavante que atuou nas décadas de 1960 e 1970. Inicialmente jogador do rival Ypiranga, teve a transferência viabilizada pela oferta de emprego no Porto de São Francisco, prática comum em um período em que não havia concursos públicos e as admissões ocorriam por indicação. Célio construiu carreira no setor administrativo portuário e se aposentou na década de 1980.
Outros nomes ligados ao clube também mantiveram relação com as atividades portuárias, como Osmari, que chegou ao cargo de diretor do Porto, além de jogadores conhecidos como Noiva, Jaburú e Giba.




