Depois de dois anos consecutivos de retração, as importações brasileiras de casacos, anoraques e blusões de fibras sintéticas voltaram a acelerar em 2026 e atingiram o maior volume da série histórica. Segundo levantamento da Logcomex, empresa de inteligência artificial para o comércio exterior, entre janeiro e maio, o Brasil importou 15,7 mil toneladas da categoria, avanço de 82,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Em valor, as compras somaram US$ 154,1 milhões, alta de 53% e o segundo maior resultado desde o início da série, atrás apenas de 2023.
A recuperação interrompe dois anos seguidos de queda nas importações da categoria e revela uma retomada importante do abastecimento para a temporada de inverno. O comportamento chama atenção porque o crescimento do volume foi significativamente superior ao avanço em valor. Ou seja, entraram mais casacos no país, porém com maior participação de itens de menor valor relativo dentro da própria categoria — movimento que pode refletir diferenças de material, gramatura, marca ou posicionamento comercial, sem indicar queda de preço de um modelo específico.
Além do avanço das importações de casacos, entre janeiro e maio, as importações de aquecedores cresceram 53,2%, as de meias e meias-calças avançaram 33,2%, as de botas de couro aumentaram 23,4% e as de cobertores e mantas subiram 22%. O estudo também revela uma elevada concentração geográfica na origem dos principais produtos ligados ao inverno. A China respondeu por 85,7% do valor importado de casacos sintéticos e por mais de 94% do volume físico da categoria. A liderança também aparece em aquecedores, onde concentra 91,6% das importações brasileiras, em lava e seca (88%) e em meias (60,7%).
Para Helmuth Hofstatter, CEO da Logcomex e especialista em comércio exterior, essa concentração exige atenção permanente dos importadores.
“Quando um único país concentra grande parte do fornecimento, como a China com mais de 94% do volume de casacos sintéticos e 91,6% dos aquecedores, fatores como câmbio, disponibilidade de contêineres, frete e alterações nas rotas comerciais passam a ter impacto direto sobre custos, prazos e disponibilidade dos produtos. Por isso, monitorar continuamente o comércio exterior deixou de ser uma vantagem e passou a fazer parte da estratégia de abastecimento”, explica.
Em outras categorias, porém, a configuração é diferente. Nas botas de couro, a Itália segue como principal fornecedora do mercado brasileiro, reforçando sua posição em um segmento de maior valor agregado. Já em cobertores e mantas, a origem das importações é mais distribuída, com Paraguai e China disputando a liderança.
Entre os produtos tradicionalmente associados ao consumo durante o inverno, os vinhos registraram crescimento de 9,1%, movimentando US$ 215,7 milhões no período. O Chile manteve a liderança, enquanto Portugal (+16,7%) e Itália (+16,2%) cresceram acima da média da categoria e ampliaram participação no mercado brasileiro.
A expansão das importações ocorreu em um cenário de forças opostas para os importadores. De um lado, a valorização do real frente ao dólar reduziu o custo das compras internacionais durante boa parte do primeiro semestre. De outro, o frete marítimo permaneceu pressionado, especialmente nas rotas asiáticas, responsáveis pelo abastecimento da maior parte das categorias analisadas.
“Produtos de inverno têm uma janela de venda muito curta. Quem compra fora do momento certo corre o risco de perder a temporada. Faz sentido que boa parte do mercado tenha aproveitado o câmbio mais favorável do primeiro semestre para reforçar estoque antes do pico da demanda para reduzir parte da exposição aos custos logísticos, mesmo com o frete pressionado nas rotas asiáticas””, conclui Hofstatter.




