Localizado em São João da Barra, no litoral norte do Rio de Janeiro, o Porto do Açu vive um novo ciclo de expansão, com investimentos em infraestrutura, diversificação de cargas e projetos ligados à transição energética. Com R$ 200 milhões recém-aplicados na ampliação do Terminal Multicargas (T-MULT), o complexo prepara novos empreendimentos que podem somar R$ 22 bilhões em investimentos ao longo dos próximos dez anos.
Entre as iniciativas estão a construção de um terminal exclusivo para grãos, a ampliação da estrutura para movimentação de combustíveis e o desenvolvimento de um polo voltado à produção e à logística de energias sustentáveis.
A estratégia busca consolidar o Açu como um dos principais complexos portuários e industriais do país, ampliando sua participação em diferentes cadeias produtivas. Em 2025, o porto alcançou o recorde de 89 milhões de toneladas movimentadas, resultado que o colocou na segunda posição entre os portos brasileiros em volume de cargas.
Ampliação do terminal
Um dos avanços mais recentes foi a conclusão da expansão do T-MULT, que recebeu R$ 200 milhões em investimentos. A obra ampliou o cais operacional de 340 para 500 metros, possibilitando a atracação simultânea de dois navios do tipo Panamax, com capacidade de até 75 mil toneladas cada. O projeto também incluiu novos pátios de armazenagem, galpões e a instalação de um guindaste híbrido, que aumentou em 30% a capacidade de movimentação e reduziu em aproximadamente 30% o consumo de diesel.
Com as melhorias, a capacidade inicial do terminal passou para 2,7 milhões de toneladas por ano, com perspectiva de alcançar 5 milhões até 2028. A infraestrutura ampliada já viabiliza novas operações comerciais, como o contrato firmado com a Petrobras para exportação de coque de petróleo. A expectativa é que o terminal concentre o escoamento da produção das quatro refinarias da estatal no Sudeste, com embarques de até 600 mil toneladas anuais.
Outra nova frente é a importação de enxofre, insumo utilizado na indústria de fertilizantes. A primeira operação, de 1,5 mil toneladas provenientes dos Estados Unidos, marcou o início de um projeto para transformar o Açu em um hub nacional de distribuição do produto. A meta é chegar a 300 mil toneladas movimentadas por ano, o equivalente a cerca de 12% da demanda brasileira.
Novo terminal de grãos prevê investimento de US$ 100 milhões
Entre os próximos empreendimentos está o primeiro terminal específico para grãos do Porto do Açu. Com investimento inicial estimado em US$ 100 milhões, o projeto deve começar a sair do papel em 2027, com previsão de início das operações em 2028.
Atualmente, a movimentação de grãos ocorre pelo T-MULT, mas o crescimento da demanda levou à necessidade de uma estrutura dedicada. A primeira etapa prevê a implantação de instalações em terra e equipamentos próprios para recebimento e movimentação das cargas, utilizando inicialmente um dos dois berços do terminal multicargas.
A expectativa é movimentar 1 milhão de toneladas já no primeiro ano de operação, com capacidade de receber até 2,5 milhões de toneladas anuais por transporte rodoviário. O projeto tem como foco atrair cargas de regiões produtoras como Minas Gerais, Goiás e parte de Mato Grosso, criando uma nova alternativa logística para o agronegócio do Centro-Sudeste brasileiro.
A administração do porto também busca um parceiro para o empreendimento, que poderá ser um produtor rural ou investidor ligado ao setor. Conforme o crescimento da operação, existe a possibilidade de construção de um berço exclusivo para o terminal.
O planejamento já considera, ainda, uma futura conexão ferroviária. Com a implantação da EF-118, ferrovia que ligará o Porto do Açu à malha ferroviária do Espírito Santo, a capacidade de movimentação do terminal de grãos poderá alcançar 9 milhões de toneladas em dez anos.
R$ 22 bilhões em projetos e aposta em combustíveis verdes
Além da expansão das operações tradicionais, o Porto do Açu trabalha na estruturação de uma carteira de projetos que reúne aproximadamente R$ 22 bilhões em investimentos previstos para a próxima década. Os empreendimentos estão em diferentes estágios de desenvolvimento, incluindo negociação, engenharia, tomada de decisão e licenciamento ambiental.
Uma das principais apostas é a implantação de uma estrutura dedicada aos combustíveis sustentáveis, com horizonte de desenvolvimento até 2030. A proposta é concentrar no complexo portuário diferentes etapas da cadeia, desde a produção até o armazenamento e a movimentação de combustíveis de baixo carbono.

Entre os produtos previstos estão o SAF (combustível sustentável de aviação), o metanol verde, a amônia verde e o biometano. Parte dos projetos já conta com empresas interessadas e áreas reservadas no complexo, enquanto o Terminal de Líquidos do Açu (TLA) deverá passar por expansão para receber e armazenar a produção.
A iniciativa acompanha a perspectiva de crescimento da demanda global por combustíveis de menor emissão, impulsionada pelas metas de descarbonização dos setores aéreo e marítimo. No Brasil, a procura por SAF deve ganhar força a partir de 2027, com o início da aplicação das metas nacionais de redução de emissões na aviação.
A transição energética também envolve mudanças nas próprias operações portuárias. O complexo iniciou testes com etanol como alternativa de combustível para embarcações menores e desenvolve projetos para eletrificação dos berços de atracação. A tecnologia permitirá que os navios utilizem energia elétrica durante a permanência no cais, reduzindo a necessidade de manter os motores ligados enquanto realizam operações de embarque e desembarque.
Os primeiros projetos de eletrificação estão concentrados no berço de apoio offshore, onde já foram realizados testes com equipamentos como rebocadores. A intenção é avançar gradualmente para embarcações maiores, conforme a infraestrutura e a tecnologia estejam disponíveis.
Outro investimento em andamento é a construção de um terminal de líquidos, com áreas destinadas ao armazenamento de lubrificantes e combustíveis marítimos. A previsão informada pela administração é de conclusão das obras em aproximadamente 45 dias.
Descomissionamento offshore amplia oportunidades
O desenvolvimento de novos negócios também alcança o segmento de descomissionamento de plataformas e embarcações utilizadas na exploração de petróleo e gás. O Porto do Açu já recebeu a plataforma P-33, da Petrobras, e mantém em seu cais as unidades P-26 e P-37 para serviços de atracação e limpeza preparatória ao desmonte.
Como próximo passo, foi firmado um acordo com a empresa IKM para a criação de um consórcio especializado em descomissionamento offshore. A parceria reúne a infraestrutura portuária do Açu à experiência da empresa em limpeza e descontaminação de unidades marítimas.
No planejamento de longo prazo, está a possibilidade de realizar no próprio complexo o corte das estruturas e o processamento da sucata, ampliando a cadeia de serviços e o potencial de geração de negócios associados ao setor de petróleo e gás.
Atualmente, o Porto do Açu responde por uma parcela expressiva das exportações brasileiras de petróleo, por meio do Terminal de Petróleo (T-Oil), operado pela Vast Infraestrutura. O complexo também abriga uma das maiores estruturas de apoio offshore do mundo e reúne empresas de atuação global, como Petrobras, Shell, Equinor, BP, TotalEnergies e Baker Hughes.
Acessos logísticos são fundamentais para sustentar a expansão
Para acompanhar o crescimento projetado, a infraestrutura de acesso ao complexo também aparece como uma das prioridades. A conexão com a EF-118, conhecida como Ferrovia Vitória-Rio, é considerada estratégica para ampliar a integração do porto com as regiões produtoras e com a malha ferroviária nacional.
O projeto federal prevê uma primeira etapa de 246 quilômetros de trilhos, ligando São João da Barra a Santa Leopoldina, no Espírito Santo, com previsão de conclusão até 2035. A conexão permitirá acesso à Estrada de Ferro Vitória-Minas, operada pela Vale, criando novas possibilidades para o transporte de grãos, insumos industriais e outras cargas.
A ampliação dos acessos rodoviários e ferroviários é apontada pelo setor portuário como condição importante para que os investimentos nos terminais se convertam em ganhos de competitividade e desenvolvimento regional.
Com a combinação de novos terminais, ampliação da capacidade operacional e projetos ligados à transição energética, o Porto do Açu busca fortalecer sua posição na infraestrutura logística brasileira. A perspectiva é de que o complexo avance para além da movimentação de petróleo e cargas tradicionais, incorporando novas cadeias industriais e ampliando sua participação no comércio nacional e internacional.



