O transporte aéreo de cargas no Brasil vive um momento de inflexão. Entre tensões geopolíticas, mudanças tributárias e a corrida global por tecnologia, o modal se consolida como alternativa estratégica para empresas que buscam agilidade e previsibilidade. Esse foi o tom do painel “Transporte aéreo 2026: riscos emergentes e oportunidades para quem quer sair na frente”, realizado durante o Comexhoje 2026, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba (PR).
O debate reuniu o diretor do Departamento de Transporte Aéreo da Allog, René Genofre; o executivo da Faurecia/Forvia, Helton Duarte; o gerente de Negócios da Zurich Airport Brasil (Aeroporto de Florianópolis), Davi Piza; e o diretor Comercial e de Marketing da Allog, Rodrigo Viti, que atuou como mediador.
Na abertura do painel, Rodrigo Viti destacou a transformação no perfil da própria Allog. “Historicamente a Allog cresceu no transporte marítimo, mas estamos crescendo cada vez mais no transporte aéreo”, afirmou. A mudança reflete uma tendência de mercado: empresas que tradicionalmente operavam no marítimo passaram a enxergar no aéreo uma ferramenta estratégica para mitigar riscos e atender demandas urgentes.
Segundo Helton Duarte, essa migração é quase natural. “Qualquer um que traz carga no transporte marítimo está sujeito a trazer carga no aéreo, principalmente por conta de movimentações geopolíticas e da urgência de algumas cargas”, disse. Na Faurecia/Forvia, o uso do modal aéreo é recorrente: “A gente traz carga aérea semanalmente.”
Concentração de rotas e desafio regional
Apesar do crescimento, o setor enfrenta gargalos estruturais. Hoje, as principais portas de entrada do transporte aéreo internacional no Brasil seguem concentradas nos aeroportos internacionais de Guarulhos e Viracopos (Campinas).
Para Helton, é preciso descentralizar. Ele defende maior articulação do mercado com companhias aéreas e agentes de carga para ampliar voos e operações nos aeroportos do Sul do país. Com a unificação tributária prevista na reforma, estados como Santa Catarina e Espírito Santo deixarão de ter diferenciais fiscais que historicamente atraíam cargas. “Isso não será mais determinante para que a carga entre por esses estados. Precisamos sensibilizar as companhias aéreas a trazer mais voos para outros aeroportos e não concentrar tudo em Viracopos e Guarulhos”, afirmou.
O executivo também cobrou investimentos em infraestrutura — citando a antiga promessa de uma segunda pista no aeroporto de Curitiba —, além de reforçar a importância de capacitação e sistemas robustos. “É fundamental investir no parceiro para que ele possa te atender a qualquer momento. Não se pode errar na escolha, seja agente de carga ou companhia aérea.”
Crescimento global e protagonismo asiático
René Genofre trouxe números para contextualizar o cenário internacional. Na terceira semana do ano, o mercado global registrava retração média de 3% nos fretes aéreos, com exceção de Coreia do Sul, Taiwan e Singapura, que alcançavam 9%, impulsionados principalmente por cargas relacionadas ao setor de tecnologia para Inteligência Artificial destinadas aos Estados Unidos.
Para 2026, a expectativa global é de crescimento de 4% no frete aéreo. “Por seu enorme potencial de consumo, o Brasil tem potencial para crescer acima da média mundial neste ano”, avaliou. Ele destacou quatro categorias que lideram a demanda global por transporte aéreo: máquinas para semicondutores, servidores para datacenters, produtos de e-commerce, e medicamentos da linha das chamadas “canetas emagrecedoras”. São cargas de alto valor agregado, sensíveis a tempo e, em muitos casos, críticas para cadeias produtivas globais, características que reforçam o papel estratégico do modal aéreo.
Oportunidade para aeroportos regionais
Representando o Aeroporto Internacional de Florianópolis, administrado pela Zurich Airport Brasil, Davi Piza apresentou um contraponto à lógica da concentração. Segundo ele, aeroportos menores podem oferecer maior flexibilidade e customização de processos.
Como exemplo, citou a chegada, em 2025, de um datacenter destinado ao TikTok do Brasil pelo terminal catarinense operação que exigiu adaptação logística específica. “Como aeroporto menor que os grandes centros, conseguimos nos adaptar à demanda do cliente e do mercado, customizar processos que nem sempre é fácil em grandes aeroportos de cargas”, afirmou.
O painel fez parte da programação oficial do Comexhoje 2026, evento que teve o patrocínio da Allog e é reconhecido como um dos principais de logística no Sul do Brasil e que reuniu decisores de grandes indústrias, especialistas e players do setor.



